A cirurgia cardíaca, apesar dos avanços científicos recentes, permanece uma modalidade terapêutica com significativas repercussões na homeostase dos diversos sistemas do corpo humano. Os cuidados médicos no pós-operatório da cirurgia cardíaca são essenciais para a boa evolução clínica dos pacientes, abrangendo diversos sistemas.
Fatores de risco pré-operatórios
Os bons resultados da cirurgia cardíaca estão diretamente relacionados aos fatores de risco pré-operatórios e ao manejo adequado desde o intra até o pós-operatório imediato. Entre os principais fatores de risco destacam-se a disfunção ventricular (fração de ejeção < 30%), diabetes, insuficiência renal, obesidade, lesão no tronco da coronária esquerda, idade avançada e tempo prolongado de CEC.
Circulação extracorpórea e resposta inflamatória
O uso de circulação extracorpórea (CEC), associada à parada cardiorrespiratória, torna a cirurgia cardíaca um procedimento peculiar. Os pacientes submetidos a este procedimento frequentemente apresentam uma resposta inflamatória sistêmica exacerbada, resultando em múltiplas disfunções orgânicas. Portanto, deve-se compreender as alterações fisiológicas causadas pelo estresse cirúrgico para manter a homeostase durante e após o procedimento para atingir um resultado satisfatório com o mínimo de morbimortalidade.
Durante o período de ausência de fluxo coronário na circulação extracorpórea, a demanda miocárdica de oxigênio deve ser reduzida para evitar isquemia e infarto. Tradicionalmente, a cirurgia cardíaca é realizada no coração não pulsátil, após indução de parada cardíaca diastólica com a infusão de solução cardioplégica na raiz da aorta e no seio coronariano.
Abordagem na unidade de terapia intensiva
Na chegada do paciente à unidade de terapia intensiva, deve-se proceder a uma abordagem sistemática para identificar e tratar prontamente disfunções orgânicas. O intensivista deve obter o máximo de informações sobre os antecedentes pessoais do paciente, uso de medicações no pré-operatório e exames complementares.
O diálogo com a equipe de anestesistas e cirurgiões é crucial para a coleta detalhada das intercorrências intraoperatórias. Além disso, parâmetros de macro e micro-hemodinâmica são importantes para a adequada reposição volêmica, manejo de drogas vasoativas e diagnóstico precoce de complicações.
Ainda assim, mesmo com o arsenal diagnóstico complementar disponível atualmente, a anamnese e o exame físico permanecem como as principais ferramentas para o diagnóstico precoce e correto das principais complicações. Não se deve atrasar o tratamento de uma possível complicação suspeitada clinicamente para aguardar a realização de um exame complementar.

Dr. Delmar Júnior
Fellowship em Terapia Intensiva Cirúrgica e Anestesiologia no Incor HCFMUSP (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Especialista em Cardiologia pela SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia. Especialista em ECMO pela ELSO (Extracorporeal Life Support Organization). Médico assistente da UTI Cirúrgica do Incor HCFMUSP. Médico diarista da UTI Cardiológica do Hospital 9 de Julho. Observership Cardiothoracic Transplant Intensive Care Unit (Houston/EUA). MBA em Gestão em Saúde no Hospital Israelita Albert Einstein. Residência Médica em cardiologia INC-RJ (Instituto Nacional de Cardiologia).