Tudo sobre o uso do ultrassom dermatológico no diagnóstico e planejamento terapêutico de doenças de pele e lesões subcutâneas. 

O ultrassom dermatológico tem sido muito utilizado na rotina ambulatorial por médicos dermatologistas. Ele fornece imagens detalhadas das estruturas da pele e dos tecidos subjacentes. Assim, se torna um importante instrumento diagnóstico para diversas condições cutâneas, auxiliando ainda no planejamento terapêutico e monitoramento de doenças dermatológicas. 

Além disso, é um excelente auxílio para realização de procedimentos injetáveis na área da estética dermatológica, ampliando a segurança e a efetividade, além de proporcionar melhores resultados nos manejos.

Ultrassom dermatológico

Diferente do ultrassom convencional, que geralmente opera em frequências mais baixas, o ultrassom dermatológico emprega frequências entre 15, 18, 22, 24 e 33 MHz, permitindo uma resolução superior. 

Quanto mais alta uma frequência, menor a penetração e melhor resolução para visualizar estruturas superficiais. Assim, essa alta definição é crucial para visualizar detalhes minuciosos da epiderme, derme, hipoderme e estruturas anexas, como vasos sanguíneos, glândulas sebáceas e folículos pilosos. 

Durante o exame, um transdutor de alta frequência é aplicado sobre a pele após a colocação de um gel condutor. As ondas sonoras emitidas pelo transdutor penetram na pele e são refletidas de volta, criando imagens em tempo real que mostram as diferentes camadas da pele e eventuais anomalias presentes.

Histologia da pele

Para utilizar o ultrassom dermatológico, é necessário o conhecimento histológico da pele: sua constituição, formação e como cada uma dessas camadas se apresentam na imagem ultrassonográfica. 

Como é sabido, a pele é composta por duas camadas principais: epiderme e derme. Alguns autores consideram o tecido subcutâneo como uma terceira camada devido à sua proximidade e comportamento reacional em processos patológicos.

A epiderme é formada por queratinócitos, melanócitos, células de Langerhans e células de Merkel. A derme é composta por fibroblastos, células dendríticas dérmicas, mastocitos e macrófagos. O tecido subcutâneo é composto por adipócitos e lóbulos de gordura separados por septos fibrosos que contêm pequenos vasos sanguíneos.

Ecogenicidade e imagens ultrassonográficas

A ecogenicidade das camadas da pele no ultrassom depende dos seus componentes principais: queratina na epiderme, colágeno na derme e gordura no subcutâneo. A epiderme aparece como uma linha hiperecóica, a derme como uma banda hiperecóica menos brilhante, e o subcutâneo como uma camada hipoecoica com septos fibrosos hiperecóicos.

A ecogenicidade e a espessura da derme variam conforme a idade do paciente. Em neonatos, a derme é levemente hipoecoica, enquanto em idosos ou pessoas com dano actínico, pode-se observar uma banda subepidérmica hipoecoica, indicativa de elastose e edema na derme papilar. Alguns autores sugerem que a medição dessa banda poderia quantificar o dano actínico.

Comparação entre imagem histológica (A) e ultrassonográfica (B) da pele normal, com identificação das camadas epidérmica (e), dérmica (d) e subcutânea (sc).
Imagem I: A: Histologia cutânea normal. B: Ultrassom de alta frequência (USAF), visão transversa. Epiderme (e), derme (d) e tecido subcutâneo (sc) com presença dos septos fibrosos (seta). Fonte: BARCAUI, et al, 2015.
Sequência de imagens ultrassonográficas demonstrando medições da espessura cutânea em diferentes áreas anatômicas.
Imagem II: 2. Visão transversa, região anterior do antebraço direito em pacientes consanguíneos com o mesmo fototipo. A: 3 meses de idade – epiderme delgada e derme com 1,45 mm de espessura. B: 25 anos de idade – derme medindo 1,22 mm. C: 55 anos de idade – espessamento epidérmico e derme com 1,03 mm. Fonte: BARCAUI, et al, 2015.

Avaliação de outras regiões com o ultrassom dermatológico 

Agora que já sabemos como as partes da pele se apresentam nas imagens ultrassonográficas, é importante conhecer as topografias muito utilizadas pelos dermatologistas e que possuem características diferentes:

Regiões palmo-plantares

Histologicamente, nas regiões palmo-plantares, há uma camada epidérmica adicional chamada estrato lúcido, situada entre as camadas granulosa e córnea. Ao ultrassom de alta frequência (USAF), a epiderme dessa área aparece como uma estrutura hiperecóica bilaminar, resultante do contraste entre a epiderme e o estrato córneo espesso.

Comparação entre histologia (A) e ultrassom (B) de pele com espessamento epidérmico e dérmico, indicando lesão inflamatória marcada por asterisco e seta.
Imagem III: Estrutura palmo-plantar. Fonte: BARCAUI, et al, 2015.

Couro Cabeludo e Haste Pilosa

O folículo piloso é um micro-órgão com comportamento cíclico, passando por fases de crescimento (anágena), remodelação (catágena), e repouso (telógena). Ao USAF, as camadas cutâneas do couro cabeludo são semelhantes às de outras áreas, com uma linha hiperecóica para a epiderme e bandas hipoecóicas para o subcutâneo e gálea. Os folículos pilosos são observados como estruturas hipoecóicas, variando sua profundidade conforme a fase do ciclo do pelo.

Comparação histológica (A) e ultrassonográfica (B) da pele com glândulas e estruturas dérmicas marcadas por setas brancas; destaque para camadas epidérmica (e) e dérmica (d).
Imagem IV: Couro cabeludo. A: Histologia, corte longitudinal. B: USAF visão longitudinal. Epiderme (e), derme (d), bandas oblíquas hipoecoicas que correspondem aos folículos pilosos (setas). Fonte: BARCAUI, et al, 2015.

Imagens de ultrassonografia cutânea demonstrando áreas de hiperecogenicidade (asteriscos) e múltiplas estruturas ecogênicas (losangos) na derme.
Imagem V: USAF, visão longitudinal, couro cabeludo. Paciente do sexo masculino, calvo, 41 anos de idade. Variação da espessura dérmica e do número de folículos pilosos. A: Região frontal. B: Região occipital. Derme (asteriscos), folículo piloso (losangos). Fonte: BARCAUI, et al, 2015.

Comparação entre microscopia óptica e ultrassonografia de um fio de cabelo, mostrando o complexo cutícula-córtex e a medula capilar.
Imagem VI:  Haste pilosa. A: Histologia. Estrutura córtex-cutícula-medula. B: Visão longitudinal, trilaminar. Fonte: BARCAUI, et al, 2015.

Unidade Ungueal

A unidade ungueal é composta por matriz, lâmina ungueal, cutícula, leito ungueal e dobras ungueais. Ao USAF, a lâmina ungueal aparece como uma estrutura bilaminar hiperecóica, com a matriz sendo ecogênica e o leito ungueal hipoecoico, sobrepondo-se à linha hiperecoica que representa o osso da falange distal.

Comparação entre histologia (A) e ultrassonografia (B) da unidade ungueal, com destaque para a lâmina ungueal (setas), matriz (ponto), leito ungueal (asterisco) e falange distal.
Imagem VII: Unidade ungueal normal, corte longitudinal. A: Corte histológico. B: USAF. Placa ventral (seta sentido para baixo), placa dorsal (seta sentido para cima), matriz ungueal (asterisco), leito ungueal (círculo cheio). Fonte: BARCAUI, et al, 2015.

Indicações do ultrassom dermatológico

O ultrassom dermatológico é utilizado tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento de diversas condições dermatológicas. As principais indicações incluem patologias e aplicações estéticas, como as apresentadas abaixo.

Ultrassom dermatológico na avaliação de lesões cutâneas 

O ultrassom dermatológico auxilia na avaliação morfológica e na suspeita diagnóstica de lesões benignas ou malignas, mas não substitui a confirmação histopatológica. Permite avaliar o tamanho, profundidade, ecogenicidade e a presença de vascularização, características fundamentais para a suspeita diagnóstica.

Além disso, pode  ser útil para a avaliação de nevos atípicos e melanomas, fornecendo informações sobre a espessura e invasão das camadas cutâneas. 

O ultrassom pode detectar espessamento da pele e aumento da vascularização, característicos de condições inflamatórias, ajudando no diagnóstico e monitoramento da resposta ao tratamento.

Ainda, o médico pode utilizar o ultrassom dermatológico para avaliar e monitorar a resposta a terapias, como imunoterapia ou radioterapia, avaliando a redução de massa tumoral.

Ultrassom dermatológico na aplicação estética 

Antes de intervenções estéticas, como injeções de preenchedores ou lipoaspirações superficiais, o ultrassom dermatológico pode mapear a anatomia cutânea e subcutânea para evitar complicações.

Após tratamentos estéticos, utiliza-se o ultrassom para monitorar a integridade dos tecidos e identificar possíveis complicações, como granulomas, fibroses ou nódulos residuais.

Leia mais sobre o assunto: Ultrassonografia Dermatológica no contexto dos procedimentos estéticos

Laudos das imagens obtidas pelo ultrassom dermatológico

A elaboração de um laudo de ultrassom dermatológico requer uma descrição detalhada dos achados e uma interpretação acurada das imagens obtidas. O laudo deve incluir:

  1. Identificação do paciente e dados do exame: Nome, idade, sexo, data do exame e indicação clínica.
  2. Descrição técnica: Tipo de transdutor utilizado, frequência das ondas sonoras e áreas anatômicas examinadas.
  3. Achados normais e patológicos:
    • Espessura da pele: Medição da espessura da epiderme, derme e hipoderme, comparando com os valores normais esperados.
    • Presença de lesões: Descrição de nódulos, cistos, lipomas, hemangiomas, entre outras lesões, com detalhes sobre localização, tamanho, forma, ecogenicidade e vascularização.
    • Inflamação e edema: Identificação de áreas de inflamação ou edema, caracterizadas por aumento da ecogenicidade ou presença de líquido.
    • Vascularização: Avaliação do padrão de fluxo sanguíneo nas lesões, utilizando o Doppler colorido quando necessário.
  4. Impressão diagnóstica: Interpretação dos achados em relação à suspeita clínica, sugerindo possíveis diagnósticos e recomendando exames complementares ou biópsias quando indicados.

Principais achados de ultrassom dermatológico sua interpretação 

Temos alguns achados benignos e outros achados cutâneos malígnos. Cada um deste tem sua forma de apresentar nas imagens obtidas através do ultrassom dermatológico. Abaixo, apresentaremos as principais delas. 

Achados cutâneos benignos

  • Cistos Epidérmicos: Aparecem como estruturas anecóicas ou hipoecóicas com bordas bem definidas e, às vezes, septações internas.
  • Lipomas: Lesões hipoecóicas ou isoecóicas em relação à gordura subcutânea, geralmente bem delimitadas.
  • Psoríase: Espessamento da derme com aumento da ecogenicidade, podendo haver aumento da vascularização em áreas inflamadas.

Achados cutâneos Malignos

Confira como as três principais neoplasias cutâneas se apresentam nas imagens do ultrassom dermatológico:

Três exemplos de cânceres de pele com correlação clínica e ultrassonográfica: carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular com Doppler e melanoma com neovascularização.
Imagem VIII: Três principais lesões malígnas. Fonte: Sociedade Brasileira de Dermatologia

Carcinoma basocelular

Se apresenta como área hipoecogênica, bem delimitada, com contorno irregular, geralmente localizada na derme, mas podendo estender-se a planos profundos. Frequentemente observa-se a presença de pontos hiperecóicos em seu interior. 

Correlação entre imagem clínica e ultrassonografia de lesões cutâneas ulceradas com vascularização aumentada observada no Doppler colorido.
Imagem IX: Avaliação de Carcinoma Basocelular com transdutor de 24 mHz, permitindo a predição de subtipos histológicos de acordo com os achados de pontos hiperecogênicos (setas vermelhas na foto superior) e cistos (foto inferior). Fonte: Sociedade Brasileira de Dermatologia

Carcinoma espinocelular

Apesar de as aparências do carcinoma basocelular e do carcinoma espinocelular serem semelhantes ao ultrassom de alta frequência (USAF), é possível diferenciá-los, pois o espinocelular não apresenta pontos hiperecogênicos no interior da neoplasia. 

O carcinoma espinocelular, por ser mais agressivo, tende a invadir tecidos moles, cartilagem e osso adjacentes. O mapeamento com Doppler colorido geralmente mostra um padrão misto, com vascularização interna e periférica. Devido à hiperqueratose e ao maior processo inflamatório associado ao espinocelular, a área tumoral pode ser superestimada no ultrassom.

Sequência de imagens (clínica, B-mode, Doppler e histológica) de lesão nodular suspeita de malignidade cutânea, evidenciando sombra acústica posterior e vascularização periférica.
Imagem X: (A) Lesão nodular na região pré­auricular (B) Usaf, visão transversa; lesão hipoecoica localizada na derme (C) Doppler colorido; padrão misto de vascularização (D) Neoplasia epitelial formada por células atípicas com diferenciação escamosa (pérolas córneas presentes em meio ao tumor); Hematoxilina & Eosina 40X. Fonte: BARCAUI, et al., 2014

Melanomas

O melanoma geralmente aparece como uma área hipoecogênica homogênea, oval ou fusiforme, com a epiderme irregular em lesões ulceradas. O mapeamento com Doppler colorido revela que o melanoma apresenta maior vascularização, principalmente de vasos arteriais de baixo fluxo, em comparação com lesões benignas. 

Além disso, o ultrassom é mais eficaz que o exame clínico na detecção de metástases em linfonodos regionais, auxiliando na estimativa do potencial metastático por meio da avaliação da angiogênese tumoral.

Imagens ultrassonográficas em modo B (A) e com Doppler colorido (B) demonstrando estrutura cutânea com vascularização aumentada no interior da lesão, evidenciada pelos sinais de fluxo no exame Doppler.
Imagem XI: (A) Usaf, visão longitudinal; lesão fusiforme hipoecoica acometendo epiderme e derme (B) Doppler colorido apresentando discreto aumento do fluxo sanguíneo. Fonte: BARCAUI, et al., 2014

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