Historicamente, a avaliação da dor em crianças tem sido desafiadora. Métodos convencionais, como escalas de dor visuais e relatórios dos pais, frequentemente não capturam de forma precisa a intensidade e a natureza da dor.
A dor pediátrica consiste em um campo focado em identificar, avaliar e tratar a dor em crianças e adolescentes. As peculiaridades do sistema nervoso em desenvolvimento e a capacidade limitada das crianças para descrever a dor exigem abordagens especializadas.
Escala da dor na pediatria
A avaliação da dor em crianças é uma tarefa complexa, devido às diferentes habilidades de comunicação e níveis de desenvolvimento. No entanto, é essencial para fornecer um tratamento eficaz e humanizado. Desenvolveu-se várias escalas de dor para ajudar os profissionais de saúde a medir a dor de forma precisa em pacientes pediátricos.
A escolha da escala de dor deve ser adequada à idade e ao desenvolvimento cognitivo da criança. Além disso, é fundamental considerar o contexto clínico e a capacidade da criança de compreender e usar a escala de maneira eficaz. Treinamento adequado dos profissionais de saúde na aplicação dessas escalas também é crucial para garantir avaliações precisas e consistentes.
No processo de avaliação da dor em crianças, considera-se várias dimensões:
- Sensorial (através da autoavaliação do paciente)
- Comportamental
- Fisiológica.
As dimensões fisiológicas incluem parâmetros como frequência cardíaca, frequência respiratória, pressão arterial, sudorese e saturação de oxigênio.
Escala de faces de Wong-Baker
Esta escala utiliza uma série de faces ilustradas que variam de uma expressão sorridente (sem dor) a uma expressão de choro (muita dor). Dessa forma, utiliza-se geralmente para crianças a partir dos 3 anos.
Assim, instrui-se as crianças para apontar para a face que melhor representa a dor que estão sentindo.

Escala numérica de avaliação da dor
Convida-se a criança para atribuir um número de 0 a 10 para indicar a intensidade da dor, sendo 0 “sem dor” e 10 “a pior dor possível”.
Assim, utiliza-se essa escala para crianças a partir dos 7 anos que têm capacidade de compreender conceitos numéricos. Portanto, é fácil de administrar e fornece uma medida quantitativa precisa.

Escala de avaliação comportamental da dor Infantil
Avalia a dor com base em cinco critérios, cada um pontuado de 0 a 2:
- Face
- Pernas
- Atividade
- Choro
- Consolabilidade.
Utilizada principalmente para crianças de 2 meses a 7 anos. Portanto, os profissionais de saúde observam o comportamento da criança e atribuem pontuações para cada critério.
Escala de dor neonatal (NIPS)
Avalia a dor em recém-nascidos com base em seis indicadores: expressão facial, choro, padrão respiratório, movimentos das pernas, estado de alerta e padrão de sucção.
Bastante utilizados para lactantes, fornecendo uma avaliação detalhada da dor em bebês que não podem se comunicar verbalmente.
Avanços tecnológicos na avaliação da dor
Avanços tecnológicos recentes têm transformado a forma como os profissionais de saúde abordam essa tarefa crítica. Assim, essas inovações oferecem ferramentas mais precisas e eficientes para medir e gerenciar a dor em pacientes pediátricos.
Aplicativos móveis de avaliação da dor
Aplicativos móveis especialmente desenvolvidos para crianças permitem uma avaliação mais interativa e amigável da dor.
Usando gráficos, emoticons e jogos, esses aplicativos ajudam as crianças a expressar a intensidade e a localização da dor de maneira compreensível. Além de facilitar a comunicação, esses aplicativos coletam dados em tempo real, fornecendo aos profissionais de saúde informações detalhadas sobre os padrões de dor das crianças.
Sensores vestíveis
Dispositivos vestíveis, como smartwatches e pulseiras inteligentes, são equipados com sensores que monitoram sinais vitais como frequência cardíaca, saturação de oxigênio e padrões de sono.
Esses dados são essenciais para avaliar a resposta fisiológica à dor e ajustar os tratamentos conforme necessário. O monitoramento contínuo permite intervenções mais rápidas e eficazes.
Análise de expressões faciais
Tecnologias de IA estão sendo usadas para analisar expressões faciais de crianças em tempo real. Por exemplo, câmeras e software de reconhecimento facial detectam mudanças sutis nas expressões que indicam dor, oferecendo uma avaliação objetiva que complementa a autoavaliação e a observação clínica.
Realidade virtual
A realidade virtual consiste em uma ferramenta poderosa no manejo da dor pediátrica, especialmente durante procedimentos médicos.
Assim, ao imergir as crianças em ambientes virtuais interativos e relaxantes, a RV pode reduzir significativamente a percepção da dor e a ansiedade. Isso é particularmente útil em procedimentos invasivos, como punções lombares ou tratamentos de queimaduras.
Em uma reportagem realizada pelo hospital Pequeno Príncipe, o hospital mostra como os óculos de realidade virtual ajudam os pacientes pediátricos durante o manejo da dor:

Plataformas de telemedicina
A telemedicina está se tornando uma ferramenta vital no manejo da dor pediátrica, especialmente para famílias em áreas remotas.
Assim, consultas virtuais permitem que especialistas em dor avaliem e ajustem planos de tratamento à distância, garantindo um acompanhamento contínuo e eficaz.
Dispositivos de monitoramento remoto
Dispositivos conectados que monitoram a condição da criança em casa fornecem dados contínuos sobre a dor e outros parâmetros de saúde.
Dessa forma, isso permite que os médicos intervenham rapidamente em caso de alterações significativas, melhorando a gestão da dor e a qualidade de vida da criança.
Como manejar a dor pediátrica?
O manejo da dor envolve a adoção de abordagens multidimensionais, pois diversos fatores podem influenciar sua ocorrência ou expressão, independentemente de sua etiologia. Geralmente, são utilizadas combinações de intervenções farmacológicas e não farmacológicas.
Intervenções farmacológicas
Atualmente, as estratégias farmacológicas para o tratamento da dor em pediatria incluem:
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
- Opioides
- Analgésicos adjuvantes
- Analgesia local e regional
- Além de anestesia geral.
Os AINEs e opioides são os analgésicos mais utilizados para o tratamento da dor aguda, mas oferecem pouco benefício para pacientes com dor crônica ou neuropática. Estes pacientes geralmente são tratados com adjuvantes, como anticonvulsivantes, antidepressivos neurolépticos, anestésicos locais e gerais, ansiolíticos, relaxantes musculares, corticosteroides, psicoestimulantes, anti-histamínicos e moduladores adrenérgicos.
Procedimentos anestésicos na dor pediátrica
Os procedimentos anestésicos (bloqueios anestésicos) atuam interrompendo temporariamente as vias nervosas sensitivas e nociceptivas em troncos, plexos e raízes nervosas, bem como as vias neurovegetativas.
Portanto, o alívio da dor proporcionado por esses bloqueios geralmente é temporário, durando dias ou semanas. Esses bloqueios são eficazes no tratamento de dores intensas e de curta duração.
Técnicas anestésicas regionais são frequentemente benéficas, especialmente para pacientes em período pós-operatório. Em certas ocasiões, indivíduos que sofrem de dores intensas também podem se beneficiar dessas técnicas de analgesia.
Intervenções não farmacológicas na dor pediátrica
As práticas complementares de tratamento não farmacológico podem ser divididas em dois grupos: técnicas que devem ser executadas por profissionais qualificados e técnicas mais simples, que são fáceis de aprender e podem ser ensinadas aos pacientes e seus familiares.
Assim, os programas de atividade física têm como objetivo restaurar a função, a força e o trofismo muscular, além de desenvolver o senso de propriocepção e promover um movimento mais ordenado e eficiente, aumentando a flexibilidade articular e prevenindo a síndrome do desuso.
Por outro lado, a musicoterapia surge como uma alternativa terapêutica, contribuindo para a redução do estresse e da tensão, bem como promover o relaxamento e estimulando a produção de endorfinas, permitindo uma escapada para um estado livre de dor, através da imaginação.
A psicoterapia se baseia na comunicação entre as partes envolvidas, enquanto a hipnose, uma técnica psicológica, é empregada para facilitar a realização de procedimentos invasivos e dolorosos. Ambas, tanto a psicoterapia quanto a hipnose, exigem a expertise de um profissional especializado.
Além disso, a ludoterapia e a arteterapia surgem como estratégias adicionais valiosas para o alívio da dor em crianças. Por meio de brincadeiras, jogos e atividades artísticas, as crianças têm a oportunidade de expressar seus sentimentos e emoções, resultando em uma redução da ansiedade e um aumento da autoestima.
Estudos mostram que a terapia cognitivo-comportamental é amplamente empregada em crianças mais velhas e adolescentes. Seu propósito é capacitar a criança a entender a conexão entre seus pensamentos, sentimentos e comportamentos relacionados à dor, ou que possam aumentar sua intensidade.
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Referência bibliográfica
- AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS – AAP; AMERICAN PAIN SOCIETY – APS. The assessment and management of acute pain in infants, children, and adolescents. Pediatrics, v. 108, n. 3, p. 793-797, 2001.
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- BARBOSA, S. M. M. Dor em Pediatria. In: ALVES NETO, O. et al. Dor princípios e prática. Porto Alegre, RS: Artmed, 2009. p. 778-784.