Neoplasias urológicas: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
As neoplasias urológicas englobam uma variedade de tumores que se originam nos órgãos do sistema urinário, como os rins, a bexiga, a próstata e os testículos. Estes tumores podem ser benignos ou malignos, sendo que as neoplasias malignas representam uma das principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo.
O diagnóstico precoce dessas condições é essencial para melhorar os desfechos clínicos, e a ultrassonografia desempenha um papel fundamental nesse contexto.
O que são neoplasias urológicas?
Neoplasias urológicas são tumores que se desenvolvem nos órgãos do trato urinário e reprodutivo masculino. Esses tumores podem ser classificados em benignos ou malignos, dependendo do seu potencial para crescer e se espalhar para outras partes do corpo. As neoplasias malignas, como os carcinomas, são particularmente preocupantes devido à sua capacidade de invasão local e metástase.
Entre as neoplasias urológicas mais comuns estão o:
- Carcinoma de células renais
- Carcinoma urotelial
- Carcinoma de próstata
- Tumores testiculares.
Cada uma dessas neoplasias apresenta características clínicas e patológicas distintas, o que torna essencial um diagnóstico preciso para o planejamento do tratamento.
Fisiopatologia das neoplasias urológicas
A fisiopatologia das neoplasias urológicas varia conforme o tipo de tumor e o órgão afetado. Contudo, um denominador comum é a proliferação celular descontrolada, que ocorre devido a mutações genéticas que conferem vantagens proliferativas às células tumorais.
No carcinoma de células renais, por exemplo, mutações no gene VHL (von Hippel-Lindau) levam à ativação de vias de sinalização que promovem a angiogênese e o crescimento tumoral. Já no carcinoma de próstata, a progressão da doença está frequentemente associada à desregulação de vias hormonais, particularmente os andrógenos, que estimulam o crescimento das células prostáticas.
Fatores que contribuem para o desenvolvimento de neoplasias urológicas
Assim como ocorre com outros tipos de câncer no corpo humano, a hereditariedade é um dos principais fatores que influenciam o surgimento de tumores no trato urinário. No entanto, certos hábitos de vida podem elevar as chances de desenvolver essa doença.
O tabagismo, o consumo excessivo de álcool, o uso de drogas ilícitas e uma alimentação inadequada estão entre os fatores de risco. Além disso, a falta de higiene e a negligência no tratamento de infecções podem aumentar o risco de desenvolvimento dessas neoplasias.
Manifestações clínicas das neoplasias urológicas
As manifestações clínicas das neoplasias urológicas são variadas e, portanto, ddependem do tipo específico de tumor e do estágio da doença. Muitos tumores urológicos são assintomáticos nos estágios iniciais, sendo detectados incidentalmente durante exames de imagem realizados por outros motivos. Quando os sintomas estão presentes, eles podem incluir:
- Hematúria: comum no carcinoma renal e urotelial
- Dor lombar: frequentemente associada a tumores renais ou testiculares
- Sintomas urinários: incluem hesitação, fluxo fraco, urgência e noctúria, típicos no carcinoma de próstata
- Massa abdominal ou testicular: palpável em casos de tumores renais ou testiculares.
- Sintomas constitucionais: perda de peso, fadiga e febre, que podem ocorrer em estágios avançados.
A diversidade das manifestações clínicas torna essencial uma abordagem diagnóstica abrangente, onde a ultrassonografia desempenha um papel central na identificação e caracterização das neoplasias.
Diagnóstico de neoplasias urológicas com ultrassonografia
Carcinoma de células renais
O carcinoma de células renais (CCR) é a forma mais comum de câncer renal, representando aproximadamente 90% dos casos em adultos. A fisiopatologia do CCR está frequentemente associada a mutações no gene VHL (von Hippel-Lindau), que levam à ativação de vias de sinalização envolvidas na angiogênese e no crescimento tumoral.
Clinicamente, os pacientes podem apresentar sintomas como hematúria, dor lombar ou ser assintomáticos, com a doença sendo muitas vezes descoberta incidentalmente durante exames de imagem por outros motivos.
A ultrassonografia é frequentemente o primeiro exame utilizado na investigação do CCR. Características ultrassonográficas típicas incluem:
- Massas renais sólidas com contornos irregulares
- Presença de calcificações
- Aumento da vascularização interna.
Estudos, como o publicado no Journal of Urology, indicam que a ultrassonografia possui uma sensibilidade de até 90% na detecção de CCR em estágios iniciais, destacando sua importância como ferramenta de triagem. Dessa forma, a ultrassonografia (US) abaixo demonstrou, com maior clareza, os achados observados na urografia excretora, revelando que o rim esquerdo estava significativamente aumentado em volume. A imagem mostrou uma distorção da arquitetura normal do rim devido a uma grande lesão expansiva de contornos lobulados e eco-complexa, contendo áreas anecóicas e focos de calcificação grosseira distribuídos na lesão.

O diagnóstico definitivo geralmente requer exames complementares, como tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM), para um estadiamento mais preciso e planejamento terapêutico adequado.
Carcinoma urotelial da bexiga
O carcinoma urotelial, também conhecido como carcinoma de células transicionais, é o tipo mais comum de câncer da bexiga, mas também pode afetar os ureteres e a uretra. A fisiopatologia envolve alterações genéticas que promovem a proliferação descontrolada das células uroteliais. Fatores de risco incluem tabagismo, exposição ocupacional a certas substâncias químicas bem como infecções crônicas do trato urinário.
Clinicamente, a apresentação mais comum é a hematúria indolor, que frequentemente leva à investigação com ultrassonografia. Dessa forma, no exame ultrassonográfico, pode-se visualizar lesões na bexiga como áreas hipoecogênicas ou hipoecogênicas com espessamento da parede vesical. A ultrassonografia também é utilizada no monitoramento da resposta ao tratamento e na detecção de recorrências. Estudos demonstram que, embora a ultrassonografia seja eficaz na detecção inicial, a cistoscopia continua sendo o padrão-ouro para o diagnóstico definitivo e a avaliação da extensão do carcinoma urotelial.
A USG da bexiga abaixo demonstra uma agulha coaxial 17G × 13 cm (seta) posicionada adjacente à lesão vegetante na parede lateral esquerda da bexiga.

Carcinoma de próstata
O carcinoma de próstata é o câncer mais frequente em homens e a segunda principal causa de morte por câncer masculino. Dessa forma, a fisiopatologia está fortemente ligada à influência dos andrógenos, que promovem o crescimento das células prostáticas. Além disso, mutações genéticas e alterações hormonais também desempenham papéis significativos na carcinogênese prostática.
As manifestações clínicas incluem sintomas urinários como:
- Hesitação
- Fluxo fraco
- Urgência
- Noctúria.
No entanto, muitos casos são assintomáticos nos estágios iniciais e são detectados por meio de exames de rastreamento, como o PSA (antígeno prostático específico). A ultrassonografia, particularmente a ultrassonografia transretal, é essencial no diagnóstico e na orientação de biópsias prostáticas. Assim, estudos indicam que a combinação da ultrassonografia com técnicas de imagem avançadas, como a elastografia, pode melhorar a precisão na detecção de lesões suspeitas, reduzindo a necessidade de biópsias invasivas.
Observa-se nódulo hipecoico na zona periférica direita. No doppler colorido observa-se foco de hipervascularização no seu interior. A biópsia mostrou um adenocarcinoma de Gleason (4+3)

Tumores testiculares
Os tumores testiculares, embora raros, são os neoplasias mais comuns em homens jovens, especialmente entre os 15 e 35 anos de idade. A fisiopatologia envolve a transformação de células germinativas em neoplasias malignas, como o seminoma e o não-seminoma, que têm diferentes características clínicas e prognósticos.
Clinicamente, os tumores testiculares geralmente se apresentam como uma massa testicular indolor, muitas vezes detectada pelo próprio paciente durante o autoexame. Dessa forma, a ultrassonografia escrotal é a principal ferramenta diagnóstica, permitindo a diferenciação entre massas sólidas e císticas. Assim, características ultrassonográficas sugestivas de malignidade incluem uma massa sólida com bordas irregulares e aumento do fluxo sanguíneo interno, avaliado através do Doppler. A ultrassonografia também é utilizada no acompanhamento pós-tratamento para detectar recidivas. Na USG abaixo é possível observar lesões testiculares hipoecogênicas bilaterais e espessamento nodular do epidímio esquerdo.

Técnicas ultrassonográficas
A preparação adequada do paciente é importante para garantir a qualidade das imagens ultrassonográficas e, consequentemente, a precisão do diagnóstico. Assim, para exames de ultrassonografia abdominal, que incluem a avaliação dos rins e bexiga, o paciente geralmente deve estar em jejum de 6 a 8 horas, o que minimiza a presença de gases intestinais que podem interferir na qualidade das imagens.
Além disso, é comum que o paciente seja instruído a beber água para manter a bexiga cheia, o que facilita a visualização das estruturas pélvicas e da bexiga.
Posicionamento
O posicionamento do paciente varia conforme o órgão a ser examinado. Para a avaliação dos rins, o paciente geralmente é posicionado em decúbito dorsal (deitado de costas), com uma leve inclinação lateral para facilitar o acesso aos flancos.
No caso da próstata, a ultrassonografia transretal requer que o paciente esteja em posição de litotomia ou em decúbito lateral com os joelhos dobrados em direção ao peito.
Protocolo
O protocolo de ultrassonografia urológica inclui a varredura completa dos órgãos em diferentes planos – longitudinal, transversal e oblíquo – para assegurar uma avaliação abrangente.
No exame dos rins, o protocolo envolve a medição das dimensões renais, a avaliação do parênquima renal e a identificação de eventuais lesões.
Na bexiga, é necessário medir a espessura da parede, verificar o volume vesical e buscar lesões intravesicais. O protocolo de exame prostático com ultrassom transretal inclui a avaliação do volume da próstata e a identificação de possíveis nódulos ou áreas suspeitas.
Tratamento das neoplasias urológicas
O tratamento das neoplasias urológicas varia conforme o tipo de tumor, seu estágio, a localização e as condições clínicas do paciente. As principais modalidades terapêuticas incluem:
- Cirurgia
- Radioterapia
- Quimioterapia
- Terapias alvo-moleculares
- Imunoterapia.
No carcinoma de células renais, a nefrectomia parcial ou radical é o tratamento de escolha para tumores localizados. Assim, em casos de doença avançada ou metastática, terapias alvo-moleculares, como inibidores de tirosina quinase, e imunoterapia, com inibidores de checkpoint, têm mostrado eficácia significativa.
Para o carcinoma urotelial da bexiga, frequentemente utiliza-se a ressecção transuretral de tumor (TURBT) para tumores superficiais. Dessa forma, em casos de doença invasiva, a cistectomia radical pode ser necessária, frequentemente acompanhada de quimioterapia adjuvante; a imunoterapia também tem se mostrado promissora, especialmente em pacientes com doença metastática.
Além disso, no carcinoma de próstata, as opções de tratamento variam desde a vigilância ativa para casos de baixo risco até a prostatectomia radical e radioterapia para doenças mais avançadas. Utiliza-se a terapia de privação androgênica em casos de progressão hormonal, bem como novas terapias alvo-moleculares estão sendo desenvolvidas para melhorar os resultados em estágios avançados.
Geralmente trata-se os tumores testiculares com orquiectomia radical como tratamento primário. Dependendo do tipo histológico e do estágio da doença, pode-se utilizar a quimioterapia adjuvante para reduzir o risco de recidiva. A radioterapia também pode ser utilizada em casos de seminoma em estágios específicos.
Portanto, o diagnóstico precoce das neoplasias urológicas é fundamental para melhorar os desfechos clínicos e reduzir a mortalidade associada a esses tumores. A ultrassonografia desempenha um papel central na detecção e caracterização dessas lesões, orientando o tratamento adequado. À medida que a tecnologia de imagem evolui, espera-se que a ultrassonografia continue a ser uma ferramenta valiosa na prática clínica urológica, auxiliando os profissionais de saúde no manejo eficaz dessas condições.
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Referência bibliográfica
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