Veja como a cervicite deve ser diagnosticada, as opções de tratamento disponíveis e como acompanhar a sua paciente com essa condição. Boa leitura!
A cervicite é uma condição clínica ginecológica importante. Pensando nisso, é fundamental que o médico generalista também possa ser capaz de identificar essa condição e realizar o tratamento adequado, quando na ausência de um especialista.
O que é cervicite?
A cervicite é uma inflamação do cérvix uterino, afetando portanto as células epiteliais colunares das glândulas endocervicais.
A causa da cervicite pode ter origem infecciosa ou não infecciosa — como irritantes químicos, alergias ou trauma — e os profissionais podem classificá-la como aguda ou crônica. De maneira geral, as cervicites agudas estão mais relacionadas a quadros infecciosos, enquanto que as crônicas dificilmente estão ligadas à infecção.
Cervicite é uma condição tratável, e o acompanhamento médico é fundamental para garantir a cura da infecção e evitar complicações a longo prazo. Além disso, a prevenção de ISTs, por meio do uso de preservativos e práticas sexuais seguras, é crucial para reduzir o risco de cervicite e outras infecções relacionadas ao colo do útero.
Embora as ISTs como, a clamídia e a gonorreia, sejam causas comuns de cervicite, também existem outras maneiras pelas quais essa inflamação do colo do útero pode ocorrer. Alguns outros fatores que podem contribuir para a cervicite incluem:
- Irritação química: produtos químicos irritantes como, duchas vaginais, espermicidas, géis ou lubrificantes, podem causar irritação no colo do útero e levar à cervicite;
- Alergias: alérgenos presentes em produtos de higiene íntima, preservativos ou outros produtos podem desencadear reações alérgicas no colo do útero;
- Lesões ou traumas no colo do útero, resultantes de atividades como, relações sexuais ásperas ou inserção inadequada de dispositivos contraceptivos, podem causar cervicite.
- Infecções bacterianas ou virais que não se transmitem sexualmente também podem inflamar o colo do útero, embora isso ocorra com menos frequência.
Principais agentes infecciosos causadores de cervicite
De maneira geral, a inflamação geralmente é causada por infecções, sendo as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) as causas mais comuns, incluindo Chlamydia trachomatis, Neisseria gonorrhoeae e Trichomonas vaginalis. No entanto, como comentamos, a cervicite também pode ocorrer devido a fatores não infecciosos, como irritantes químicos, alergias ou trauma.
A etiologia mais comum, no entanto, é a Chlamydia trachomatis e a Neisseria gonorrhoeae.

Clínica da paciente com cervicite
Os principais sintomas da cervicite incluem corrimento vaginal anormal, dor pélvica, sangramento intermenstrual ou pós-coital e, ocasionalmente, disúria (dor ou ardor ao urinar).
No entanto, é importante destacar que muitas pessoas com cervicite podem ser assintomáticas, o que a torna uma condição que pode passar despercebida.
O corrimento vaginal anormal dessa paciente é o sintoma mais característico. Ele pode variar em cor, podendo ser amarelado, verde ou mesmo cinza. Sua consistência também pode variar, sendo aquosa ou mucosa, bem como o odor normalmente desagradável. Por isso, não existem sintomas patognomônicos ou muito específicos.
Esse conjunto de características geralmente se relaciona bem quando a causa da cervicite é por clamídia ou por gonorreia. Em geral, a clamídia apresenta um corrimento mais aquoso, enquanto que a gonorreia com um aspecto mais leitoso.
Em alguns casos a paciente ainda pode relatar um prurido vaginal. Esse sintoma é muito mais comum naquelas pacientes cuja causa de cervicite não é por clamídia ou gonorreia, mas por alérgenos ou irritações químicas. O ato de lavar o interior da vagina com sabonete íntimo com essência (não recomendado pelos ginecologistas) pode promover essa reação.
Durante a relação sexual penetrativa a paciente com cervicite pode sim ter uma experiência dolorosa, secundária à inflamação do colo uterino. Em casos mais graves, a cervicite pode até mesmo desencadear sintomas sistêmicos, como febre e mal-estar.
Como vimos, os sintomas não são tão especificos quanto em outras patologias ginecológicas. Por essa razão, é válido que o especialista esteja atento à essa suspeita diagnóstica, que poderá ser mais bem embasada com a passagem do espéculo no exame físico.
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Exame físico e colposcopia: o que esperar?
A anamnese prévia ao exame físico deve contar com as perguntas sobre sintomas, histórico médico e sexual, uso de contraceptivos, e outros fatores relevantes.
O sintoma mais característico da cervicite é o corrimento vaginal anormal. Por isso, ao exame especular pode ser identificado um fluxo vaginal aumentado. Como o aspecto pode variar muito, é interessante que você exclua diagnósticos diferenciais, como candidíase e tricomoníase, cujo corrimentos são bem característicos. À visualização do colo do útero é possível identificá-lo como inflamado com aparência eritematosa, inchado ou com aspecto anormal. A inflamação pode atingir o colo do útero de forma localizada ou difusa.
Na imagem abaixo, a secreção mucopurulenta é visível proveniente do orifício em um paciente com cervicite por Chlamydia. O colo do útero é eritematoso e friável.

Se uma mulher com cervicite apresentar sintomas graves, como sangramento vaginal intenso ou dor intensa, o médico pode realizar uma colposcopia para avaliar a causa subjacente da cervicite e identificar lesões ou complicações.
Em alguns casos de cervicite, pode haver sangramento do colo do útero. Isso pode ser observado como manchas de sangue no espéculo vaginal durante o exame, ou mesmo na passagem da escova endocervical. Essa apresentação é agravada em pacientes menopausadas, secundário à atrofia de colo.
Devem ser buscadas a presença de lesões, úlceras ou outras anormalidades no colo do útero que possam estar relacionadas à cervicite ou a condições subjacentes como, infecções sexualmente transmissíveis.
Testes laboratoriais
É importante ressaltar que o diagnóstico preciso da cervicite requer não apenas o exame físico, mas também pode envolver testes laboratoriais para identificar a causa subjacente da inflamação como, infecções por clamídia, gonorreia ou outros patógenos. Portanto, o médico pode solicitar testes adicionais como, culturas, testes de amplificação de ácido nucleico (NAAT) ou testes de Papanicolau, para confirmar o diagnóstico e guiar o tratamento apropriado.
Os profissionais podem coletar amostras como:
- Cultura bacteriana, afim de identificar as bactérias específicas como Chlamydia trachomatis ou Neisseria gonorrhoeae.;
- Testes de Amplificação de Ácido Nucleico (NAT), para identificar DNA ou RNA com alta sensibilidade;
- Papanicolau (Pap), em busca de avaliar possíveis alterações nas células cervicais.
Quando realizar a coleta de amostras para cultura, PCR ou testes de amplificação
Os testes são indicados na falha do tratamento com a persistência dos sintomas iniciais. Através dos testes, a causa subjacente pode ser identificada e um tratamento mais bem direcionado pode ser realizado. Por exemplo, se houver suspeita de clamídia ou gonorreia, a coleta de amostras para esses testes é indicada, sendo essas as principais suspeitas. Em alguns casos, a depender do serviço, esses testes fazem parte da rotina de triagem.
Se a paciente tiver um histórico sexual de risco como, múltipos parceiros sexuais ou relações sexuais desprotegidas, o médico pode recomendar a realização de testes para infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mesmo na ausência de sintomas.
Após tratar a cervicite, o médico pode solicitar testes de acompanhamento, como PCR ou NAT, para confirmar a erradicação da infecção. Em casos de cervicite causada por ISTs, pode ser necessário avaliar e tratar os parceiros sexuais da paciente para evitar a reinfecção.
Tratando a cervicite: infecciosa e não-infecciosa
O tratamento da cervicite visa o alívio dos sintomas e a prevenção de infecção do trato genital superior. No entanto, diante dessa possibilidade preocupante e da via de transmissão sexual, os profissionais não devem adiar o tratamento enquanto aguardam os resultados dos testes.
Pensando nisso, indivíduos diagnosticados recebem tratamento independentemente da sintomatologia.
O tratamento empírico envolve a administração de antibioticoterapia, sendo as medicações escolhidas azitromicina, doxiciclina ou eritromicina para tratar infecções bacterianas como, clamídia ou gonorreia. Segue-se conforme o seguinte:
Clamídia
- Preferencial: Doxiciclina 100 mg por via oral duas vezes ao dia durante sete dias (cobre também para gonorreia);
- Alternativa: Azitromicina 1g VO, uma vez ao dia, ou Levofloxacina 500mg VO, diariamente por 7 dias, na ausência da Doxiciclina.
Gonorreia
Recomenda-se para o tratamento a Ceftriaxona em dose única intramuscular (IM), determinada pelo peso do paciente, sendo:
- <150 kg – Ceftriaxona 500 mg por via intramuscular uma vez;
- ≥150 kg – Ceftriaxona 1 g por via intramuscular uma vez.
T. Vaginalis
- Metronidazol 500 mg por via oral duas vezes ao dia durante sete dias;
- Tinidazol 2g (04 comprimidos de 500mg) VO, e o(s) parceiro(s) também deve ser tratado.
Vírus herpes simplex (HSV)
- Aciclovir 400mg, VO, três vezes ao dia durante 7 a 10 dias;
- Famciclovir 250mg, VO três vezes ao dia durante 7 a 10 dias;
- Valaciclovir 1000mg, VO, duas vezes ao dia durante 7 a 10 dias.
Os profissionais não consideram as fluoroquinolonas e a doxiciclina como alternativas adequadas no tratamento da gonorreia, devido ao aumento da resistência a esses medicamentos. Além disso, a terapia com azitromicina oral isoladamente pode não ser eficaz em alguns casos de gonorreia, devido ao aumento da resistência a esse antibiótico.
Portanto, os profissionais devem adotar abordagens terapêuticas atualizadas e alinhadas às diretrizes clínicas mais recentes para tratar com eficácia essa infecção sexualmente transmissível.
Cervicite em gestantes
O diagnóstico da cervicite em gestantes se dá da mesma maneira que em pacientes não gestantes. No entanto, o profissional deve realizar o diagnóstico com mais cautela, já que o estrogênio pode mimetizar a cervicite aguda.
Para esse grupo de pacientes, os profissionais preferem a Azitromicina em vez da Doxiciclina e das Fluoroquinolonas, que apresentam riscos durante a gravidez.
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Referências
- Acute cervicitis. Anna Maya Powell, MD. UpToDate
- Vaginitis in adults: Initial evaluation. Jack D Sobel, MD. UpToDate
- Cervicite: Assintomática e Perigosa? Luiz G. M. de Oliveira Andrade. Disponível em: https://www.sanarmed.com/cervicite-assintomatica-e-perigosa-colunistas.